Guarulhos: Bairro a Bairro

Estudo sobre a história dos bairros de Guarulhos.

Para que serve a História Próxima, Local?

 por Elmi E H Omar

O dicionário Houaiss apresenta o termo HISTÓRIA como: “a evolução da humanidade ao longo de seu passado e presente; sequência de acontecimentos e fatos a ela correlatos.” Além da definição anterior, existem muitas outras, bem com enfoques diversos nesta área.  

 Nós do Guarulhos Tem História focalizamos a história próxima, local, tendo como um dos objetivos, produzir professores e educandos agentes ativos da história. Acreditamos que a pesquisa sobre o espaço onde a pessoa construiu ou construíram sua identidade, fornece instrumentos para uma atuação eficaz em diversas áreas do conhecimento. Estudos históricos abordando aspectos e espaços gerais ocorrem em abundância, mas as particularidades da história em determinado espaço carece de análise, principalmente na escola.

 Além da questão pedagógica, existem questões relacionadas à cidadania, convivência, identidade, alteridade, memória, patrimônio entre outras, que no tempo presente nos afetam, mas que em muito foram construídas no passado.

 “… O homem (…) devido a seu poder de lembrar, acumula seu próprio passado, toma posse dele e o aproveita. O Homem nunca é o primeiro homem: desde o princípio já existe a partir de um certo nível de passado acumulado. Este é o tesouro único do homem, seu privilégio e sua marca.” (José Ortega Y Gasset)

 Jacques Le Goff, importante historiador da escola dos Annales, definiu bem a questão relacionada com essa tendência de enfoque na história local.

 “Todavia, acho que a história viva e, em particular, a nova história, na medida em que constitui não um bloco, mas uma nebulosa cujo cerne histórico é a escola dos Annales, não cessaram e não devem cessar de ter como horizonte e ambição uma história que englobe o conjunto de evolução de uma sociedade segundo modelos globalizantes. Creio, aliás, que o que aconteceu e o que acontece nos melhores casos é que os historiadores dessa tendência conservaram o mesmo objetivo, mas procuram atingí-lo por outros meios, por exemplo, a partir de estudos de casos colocados como modelos. Assiste-se, por exemplo, uma regeneração, nessa perspectiva, de estudos de história local ou regional: Montaillou, un village occitan (Emmanuel Le Roy Ladurie), Le Latium médiéval (Pierre Toubert), Le Mâconnais (Georges Duby), Caen (Jean-Claude Perrot), Les toscans du Quattrocento (David Herlihy e Cristiane Klapisch), La Normandie orientale de la fin du Moyen Âge (Guy Bois), etc…”

 Sobre a micro-história Le Goff diz:

 (…) “Historiadores italianos lançaram uma concepção de ‘história com lupa’, próxima da antropologia, como a nova história, que se interessa mais particularmente pelos ‘temas da vida privada, do pessoal e do vivido, aqueles que o movimento feminista privilegia com tanta força’ – o que não é uma coincidência, ‘ já que as mulheres constituem, sem duvida nenhuma, o grupo que pagou o tributo mais pesado pelo desenvolvimento da história dos homens’, sendo um de seus temas favoritos o ‘excepcional normal’.” (Le Goff, 2001, p. 3, 24)

  Exemplo de produção nesse estilo é o célebre livro de Carlo Ginzburg: O queijo e os vermes.

 Acreditamos ser necessário que a historia local, regional, micro, ganhe espaço para concorrer com teorias e métodos que tendem ao etnocentrismo persistente na história. A valorização desse tipo de abordagem histórica frustrará o ‘roubo da história’, nesta era da comunicação e globalização.

 A historiadora Arlene Clemesha comentando o livro de Jack Goody: O roubo da história expressou-se apropriadamente neste sentido:

 “Portanto, muito daquilo que vários historiadores apresentam como sendo fruto do avanço europeu, existiu como resultado do desenvolvimento autóctone de diferentes sociedades em todo mundo. Tal seria o caso de valores que o discurso denominado culto associa automaticamente à Europa, como o humanismo e o individualismo, além da própria democracia, abordados pelo autor nos capítulos finais do seu livro. (…) Da mesma forma, denuncia, na obra do historiador Fernand Braudel, o contraste entre um Oriente estático um Ocidente dinâmico, características estas incorporadas a uma visão ‘civilizacional’ sendo que deveriam, quando muito, pertencer ao campo do ‘conjuntural’.” Arlene Clemesha na revista História Viva. ed nº 61, 2009, p.78 comentando o livro de Jack Goody: O roubo da história)

 Essa ‘História Próxima’ (Derivação por metáfora, característica do que é familiar, íntimo; intimidade, familiaridade) visa achegar o individuo dos eventos ocorridos ‘perto’ dele durante o tempo passado, de modo que ele preserve e divulgue o legado cultural, e as “soluções e ou fracassos”, que determinados humanos realizaram naquele espaço e tempo específico. De maneira alguma enaltecendo determinado povo, mas reconhecendo que o indivíduo precisa ter um sentimento de pertencimento significativo no meio em que vive, e simultaneamente, ampliando a sua visão de soluções para os problemas humanos. Esse conhecimento pretende conduzir a liberdade, com a sua expansão, integrará conhecimentos de diversos locais, evidenciando a diversidade, sem impedir a integração.

 Há grandes forças na sociedade que tendem a uniformizar os espaços, identidades, cultura, entre outras, quando a união é que deve ser alcançada. Transformar outros visando moldá-los para caber, como que numa forma de padrões ideais, não tem obtido resultados desejáveis. Algumas raras experiências de união, reconhecendo as diferenças, têm produzido bons resultados. Compare aos órgãos e membros de nosso corpo, este, considera as diferenças entre os membros, mas atua junto para produzir eficiência e felicidade.

 Pois bem, este é o principal objetivo do movimento Guarulhos Tem História. Suas primeiras atividades, em abril de 2005, foram listar e ler as publicações sobre a história da cidade, em seguida realizar alguns debates com personalidades da esfera acadêmica que estudaram a localidade. Alguns resultados foram a criação e estruturação de um site sobre a história local, http://www.guarulhostemhistoria.com.br, em 2006. Entre outras atividades incluem o pedido de tombamento do sítio arqueológico do ciclo do ouro no Ribeirão das Lavras. Lançamento dos livros: “Guarulhos Espaço de Muitos Povos” em 2007, reeditado em 2009 e “Guarulhos Tem História, Questões sobre História Natural, Social e Cultural” em 2008. Foram ministrados pequenos cursos e palestras sobre a história de Guarulhos. O trabalho do grupo foi usado em diversas iniciativas do governo municipal, como exemplos: o projeto de requalificação do centro histórico municipal, o parque municipal de preservação da memória da cultura negra, sítio da Candinha.

 Os futuros projetos incluem reflexão e “comemoração dos ‘450 anos’ de existência de Guarulhos”, a criação de um parque interdisciplinar relacionado ao ciclo do ouro na região de serra em Guarulhos e a preservação do maior patrimônio local: o remanescente ambiental na região serrana de Guarulhos. Produzir uma política de estado e não partidária é o caminho; contamos com a participação de todos.

 Elmi E H Omar

Pós-graduado em História

Email: elmiomar@hotmail.com

Fone: 93786698

julho 14, 2009 - Posted by | Uncategorized | , , ,

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